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Historinha de tapetes

22/07/2011

Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro… não sei como é possível ser tão espalhada. Pensei em aumentar o tapete, para o caso de um dia a imensidão interior resolver saltar ao lado de fora e para poder receber os amigos, os simpáticos e os desconhecidos. Eu sempre quis fazer coisas bonitas, mas o meu melhor foi esse tapete de lã fina, que era para não ser dividido e virou um convite a quem quisesse se acomodar.

Um dia eles começaram a chegar. Acho que gostaram do meu tapete, mas jamais entenderam o tom convidativo de nenhum dos meus atos. Então, primeiro eles cortaram as beiradas do meu tapete. E riram nas salas de portas fechadas. Depois, jogaram terra e pedras no meu tapete. Conseguiram sujar a minha roupa azul. Continuavam rindo, agora pelos cantos, cobrindo a boca com as mãos.

Eles vieram muitas vezes, fizeram várias tentativas. Não sei o que tinham contra o meu tapete. Um dia eles puxaram com força e o tiraram de mim. Enrolaram, pisaram em cima. E agora já não disfarçavam mais o riso. Gargalhavam alto e apontavam os indicadores em minha direção. Mas eu tinha uma ideia fixa nesse negócio de tapete e tive uma ideia muito boa. Brilhante, mesmo: passei a descrever o meu tapete para eles. Contei dos detalhes, das cores de que eu mais gostava, de como fazia para colocar cada fiapo de lã nos buracos da tela… Dessa vez eles não riram. Tenho a impressão de que se zangaram realmente comigo pela minha atitude. Mandaram- me parar.

Daí eu pensei que deveria estar fazendo errado, que meu relato estava saindo em voz muito baixa e esse era provavelmente o motivo da irritação deles. Eu não desisti. Meu-tapete-tem-ondas-amarelas-e-três-ostras-redondas…, comecei a dizer, aos gritos. Senti meu rosto quente na terceira bofetada, um pouco antes de perder a força de berrar. Fizeram-me calar. Mas eu havia feito o tapete mais bonito do meu mundo e desejava o reconhecimento alheio, precisava da acolhida deles para acreditar no meu talento excepcional de fazedora de tapetes, para convencer a mim mesma dessa tão rara competência artesanal, e o olhar furioso deles estava me sufocando como quando as crianças amarram acidentalmente sacolas do supermercado na cabeça e obstruem a entrada do ar pelo nariz e pela boca e quando o instante entre a agonia e o fim já durara mais do que o suportável, eu.

Eu pensei em fazer um tapete ainda mais bonito e confortável. E a experiência que adquiri fazendo o primeiro tapete me deu condições de arranjar os fios de lã de um jeito novo. Fui pensando, pensando, pensando cada linha desse outro tapete, e pensando com tanta força que o tecer mental quase fazia barulho. Terminei tão rápido que eles nem perceberam a trama. Estavam indo embora e um vento fez os cabelos da nuca de alguns deles arrepiar. Deram a volta, correram até mim e já sacavam canivetes dos bolsos quando levantei voo e sumi de suas vistas. Renderam-se ao tapete mais bonito que já haviam visto e não tinham a menor ideia de que poderiam fabricar os seus próprios tapetes mais bonitos do mundo.

De solas e asas no Prêmio Clube de Autores

27/05/2011

Será que a brincadeira funciona?

Se der um tempinho, clica na capa e vota no livro que eu coloquei lá ontem.

Encomendei um para ver como fica… Assim que chegar, conto como é tocar num livro próprio recém publicado. :D

Destino de títere

07/05/2011

Eu poderia contar uma história colorida de fantoches, descrever a criação do cenário em papelão e tecido, narrar um conto de fada com varinhas mágicas, baús de tesouro, piratas bondosos, um final feliz. Mas eu preciso falar a verdade. Tenho esse compromisso com a realidade que não me deixa inventar, nem que seja para te fazer rir. A títere morava em uma caixa de madeira sem pintura e passava a morte entre o vento e o cordão. De tempos em tempos.

Começava com a vertigem. Então os olhos se reviravam nas órbitas e ficavam voltados para o interior da cabeça, assistindo ao escuro de dentro. As pernas e os braços adormeciam e pareciam inchar. Esfregava os dedos das mãos, repetindo um mesmo movimento, insistente e incontrolável, primeiro discretamente, depois cada vez com mais força e ruído. As palavras iam pulando para fora da boca espremidas entre risos nervosos, gritos de socorro, choros, faísca de fôlego. De sua própria voz as vezes escapava entre as outras vozes: “Tenho medo, mãe”, “Me salva, me deixa sair”, “Me perdi. Eu vou morrer agora?”.

Uma tontura fria aumentava e eles vinham falar mais e mais. E diziam de seus pecados, de suas culpas, do prazer que havia no horror de criaturas como aquela, e praguejavam aos sussuros, ofendiam, debochavam, cravavam as unhas onde havia pele frágil, até que restasse apenas um risco de respiração. Os fios da boneca eram visíveis na vibração daqueles outros. De tempos em tempos as cordas ficavam claras, reluzentes, pulsantes e eles se enredavam nelas como mosquitos em uma teia oculta. Sempre agonia, vergonha, desordem.  Nós de cordão na garganta e a alma em pedaços. A exaustão era o fim. De cada episódio.

Começava com a vertigem e acabava dentro do mofo da caixa de madeira, os olhos redondos nos eixos, calados, assistindo a última fresta de luz apagar. Não terminava. Nunca terminava. Eles cansavam do jogo, mas então vinham outros e redescobriam o brinquedo. Destino.

Bailarinas brancas

06/04/2011

Vou subir por essa escadaria de mármore e me encontrar no alto, no último degrau onde danço nas pontas dos pés e aperto os olhos para ver o brilho da minha saia ao rodar no tempo. Seguro firme no corrimão e percorro a madeira escura pelos veios e percebo que coincidem com as veias azuladas dos meus braços, feito rios desenhados a linha.

Ergo lentamente uma perna e pouso as sapatilhas, uma de cada vez, na superfície lisa e fria que promete ser o meu apoio. A escada ainda se forma, sempre que olho para o fim há uma nova curva e me busco aflita com os olhos bem abertos: estou lá, vejo as bordas brancas do meu vestido honesto. Mas por que pareço assim tão distante no topo desse caracol?

Não sei, não sei pensar… Levo a mão à boca como quem abafa o espanto e encontro em seu lugar um botão, sem casa. Não há agulhas por perto, nem tesouras para forçar o abrigo. Quero alcançar logo o degrau último ou abrir o buraco por onde a boca-botão possa escapar ou se alojar e perco as forças.

Preciso deslizar para cima e lembro das lesmas, penso nas asas que não tive e vejo as minhas pernas prenderem fogo quando ainda faltam três para tocar em mim, três, três intermináveis degraus, enquanto danço em luz sem me perceber.

Sinto que posso me atingir se soprar bem forte, posso ouvir a minha presença e estender a minha mão para a moça que se desintegra no caminho, mas me falta o ar e a intenção. Dois pesos e a vertigem, um salto e o vazio. Não sei se vejo o escuro ou o colorido. Não lembro se peguei na minha mão ou desabei. Vi por dentro que veio o vento e pó.

Escrevi no dia 13 de julho de 2008 e escondi até agora, desde que travei o outro blog. Ainda gosto desse texto.

Árvore ser

22/03/2011

Tenho os pés cravados na terra cinza de um lugar que, afinal, gera, acolhe e aporta a minha inconstância e a coerência torta enquanto as minhas mãos – palomas – fazem-se penas em direção a um céu de brilhos e libertação.

Pés-raízes e mãos-passarinhos, prestes ao vôo, ligam-se por um corpo-tronco de casca frágil, mediando a urgência de ir e a necessidade de permanecer.

Vejo-me árvore. E de onde venho as árvores são capazes de elaborar asas luminosas.

* Escrevi no dia 12 de outubro de 2008, voltando de uma viagem. Não lembro qual…

El árbol de Navidad que se creía una princesa

04/01/2011

Ergueu-se raiz e azul
Brotou-se tronco e cetim
Vestiu-se folhas e vento

Voou rosa e luz
Encostou o nariz no céu.

* metáfora visual de Nela Rio e poeminha meu. Aproveito a legenda de Rio para dar nome ao texto, também em homenagem a ela. Uma quase fada… Dedico aos amigos que me lêem.

* feito em 22 de dezembro de 2008. Ai, que saudade da Nela Rio. Esse texto foi musicado pelo amigo Alexandre, no projeto “Aclive”. No dia em que o disco sair, linko aqui.

Brechas no tempo suspenso

09/09/2010

A meia-noite tem um compartimento secreto, uma arca, um baú de madeira antiga onde encerra a semente do tempo inteiro. Dentro do instante mudo e fogo fátuo de quando os ponteiros infinitos do relógio se encontram mora uma brecha de luz. Talvez nem tenhas percebido, mas nascem incontáveis meias-noites ao longo dos nossos longos dias, e não falo das metades exatas entre as 24 horas da rotação. O tempo nosso é uma vertigem que o senso comum tenta acorrentar no pulso.

O marco zero na noite cava um buraco na alma, milímetros milenares, até que o oco dá lugar a uma dimensão inesperada: o paralelo entre dentro e fora se desdobra em mil cacos de vidro verde e aí, então, começa a constância do sobressalto.

Quando dei por mim já estava plantada nessa meia-noite reincidente, cheia de dores e dádivas, de terrores miúdos na mesma medida das graças mágicas. Foi preciso dar outro sentido ao habitual, recuperar rituais, limpar as lentes sujas dos óculos e cutucar feridas que já formavam casca. Eu me joguei. Me atirei no tempo como quem se lança no precipício. E apesar dos brilhos da queda, absolutamente livre, senti dores lancinantes. Lan-ci-nan-tes, atravessada por lanças pontudas? Pode ser, a imagem me veste.

Há para sempre essa hora nua da noite em que todos os espelhos do castelo mostram o mesmo reflexo cru: múltiplos eus esfacelados. Eu sei que te assusta, mas esses gritos de mulheres e de crianças são mesmo reais. Esses lances de imagens que cruzam desavisadamente a tua cabeça não são imaginação, nem as macas, nem os corpos em decomposição, nem os homens que reviram os olhos, tampouco as borboletas e as fadas dos teus cabelos. Estão todos lá, como que aprisionados numa dimensão de labirinto.

É uma benção e também uma maldição. Meus comprometimentos ancestrais me levam direto a essa porta fluida que uma meia-noite abre. Entro toda vez, reincido na viagem. Se sinto medo há sempre, sempre, sempre, alguém no escuro que me dá a mão, quente, e garante que estou salva. Salva de mim e dos meus descontroles.

Naquele celeiro, medieval talvez, talvez antes, no tronco rústico e largo em que te amarraram com corda grossa pelos pés e te lançaram de cabeça para baixo em direção ao fogo, eu estava lá. Eu estou lá ainda e te vejo cair tantas vezes que me esvai a compaixão pelos poros, aqui deste lado onde cravo os meus pés no chão. Abaixo de nós um círculo de fogo, dentro dele uma estrela de triângulos interpenetrados, rasgando um abismo no espaço onde parte da tua alma escorregou e ficou presa. Junto com a tua, a minha, descobri esses dias.

Eu estou lá e volto tantas vezes para te resgatar de ti e das atrocidades que cometemos em nome de uma magia escura que não nos pagou sequer o pão. É a minha vez de te dar a mão, porque já aprendi a colorir essa mesma magia, a negra, com lápis de cor e a enfeitá-la com fitas do infinito para ouvir os sorrisos de quem assassinei ou ajudei a matar a dignidade.

Não alcanço se fui torturadora ou cúmplice, não lembro se me diverti, se me horrorizei ou se não senti nada quando te obrigaram a agonizar, quando te dilaceraram com a violação do corpo para punir com pregos enferrujados o teu espírito, porque nós todos sabíamos: há máculas que exigem eras para abrandarem, embora qualquer uma expire. Eu vi o sapo do tamanho de dois palmos, o rato cinza, a barata, a cobra verde com o nó no meio, o gafanhoto, o grilo e a mosca varejeira que te fizeram comer. Não impedi. Talvez nós todos tenhamos rido da tua desgraça, não fui apenas eu tua platéia e aposto que te lembras dos rostos, um por um.

As nossas capas guardaram o que as pálpebras teimaram em silenciar, mas a consciência no tempo é implacável. E hoje, entro nessa meia-noite capsular para aportar naquela meia-noite e te ajudar a desfazer o feitiço antigo. Volto para te pedir perdão. Quero que compreendas comigo, meu companheiro, que a nossa inconseqüência se transformou em flores azuis e já não há mais a necessidade da luta, mas de abraços.

Eu já me desculpei. Entendi isso quando perdi o controle e voltei ao galpão tantas vezes. Não voltava lá para te exorcizar da minha memória nem para expurgar das minhas veias aquele homem que revirava os olhos, o que desenhou um triângulo de sangue na minha barriga com o punhal, nem aqueles magos do escuro cuja imagem meus olhos astrais bloquearam, para não me assombrar além da conta aqui na vida do lado de cá. No momento em que atravessei aquela meia-noite nós nos encontramos no ar, amigo. Eu fui te buscar para mostrar a minha gravidez. Tenho gerado o bem no ventre do sempre, e queria que o teu perdão o apadrinhasse.

Chorei com força, porque ao te ver pendurado duvidei ser capaz de suportar reviver o nosso horror. Mas não estava só. Entrar na meia-noite não é jamais uma viagem que se faça desacompanhada. Espero que tenhas visto chegar do tempo, no galpão do fogo, as mesmas pessoas que uma vez humilharam o teu corpo e a tua alma tão profundamente. Nós todos fomos te buscar com frutas maduras nos bolsos, com presentes místicos da vida inteira, coroas de ervas sagradas de chá, e a vontade aguda de perdão. Era nosso compromisso te desamarrar da memória.

Depois disso, o círculo com a estrela de fogo do chão passou a me acompanhar. Senti-o na minha testa e também pude vê-lo estampado na fronte dos meus velhos companheiros. E há uma dormência branca que sussurra no meu ouvido: “a redenção está no reencontro. Vocês já podem ver o sol”. E sabes? Eu gosto mesmo de ver o sol, meu caro amigo vestido de padre. Abandona essa tua batina surrada e vem comigo vestir o sol por dentro. Nós merecemos. Já nos abriram a porta e nos chamam sorridentes para sair da fenda na meia-noite.

Gosto muito desse texto. Marca uma época muiiito importante. Foi escrito em 09 de junho de 2008.

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