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	<title>Solstícios</title>
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		<title>Solstícios</title>
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		<title>Ousadia de penetra</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 18:21:50 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem gente que passa uma vida inteira se esforçando para avançar os próprios limites, tentando provar para deus e o mundo das liberdades e dos arrojos de que é capaz. Está assim de gente que bate o pé para explicar que apesar de cumprir rigorosamente as leis desse país e de usar com constância as [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=219&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem gente que passa uma vida inteira se esforçando para avançar os próprios limites, tentando provar para deus e o mundo das liberdades e dos arrojos de que é capaz. Está assim de gente que bate o pé para explicar que apesar de cumprir rigorosamente as leis desse país e de usar com constância as palavras mágicas em sinal de respeito e cortesia aos demais tem plenas condições de, eventualmente, sair da linha e mandar às favas a etiqueta social. Gente para quem pintar as unhas dos pés de Azul Pavão nas férias seja atestado incontestável de ousadia. E tem aquelas pessoas que nascem equipadas com um atrevimento espontâneo, que primeiro disparam para depois reparar onde foram se alojar os estilhaços. Essas que vivem entrando e saindo de apuros, suspeito que se divirtam mais. Mas estou convencida de que donos de histórias hilárias para contar são os ousados extremados, aqueles que conseguem calar. As vezes silêncio é audácia pura. É o caso do Tadeu.</p>
<p>Lauro acordou cedo e espiou a rua. Combinação rara folga e calor, melhor não desperdiçar. Chamou os amigos por telefone, que toparam o churrasco na praia, no almoço. Tadeu pedalou até encontrar o fusca do Lauro ao lado da Kombi do Marcelo. Lascas de carne já circulavam. Em tempo, pensou. Estacionou a magrela na sombra da Kombi e ouviu aplausos. Trouxe o arroz para o carreteiro, Tadeu? Marcelo, sempre a pegar no pé. Parceiros desde guris, compadres na vida adulta, o trio se encontra sempre que dá. Abriu a cadeira de praia que haviam separado para ele e sentou na roda. O papo era sobre a festa de Júlia, filha do Marcelo que em breve completaria 15 anos. Daí para relembrarem a época em que os três peregrinavam por festas de debutantes foi um pulo. Conta aquela, Tadeu, do aniversário da Cris, pediu Lauro. As esposas dos amigos de orelhas em pé, queriam saber. Marcelo caiu na gargalhada. Não conseguia falar de tanto rir. Quando respirou fundo, engrossou o coro: conta Tadeu. E esperou que o amigo ruborizasse, mas não. Tadeu era um sacana. Deu um gole na cerveja e começou.</p>
<p>Olha, não sei nem que cara tinha essa Cris, mas do meu aperto lembro bem. Para variar, Lauro e eu não tínhamos sido convidados, mas o Marcelo, sim. E naqueles tempos a gente não precisava de muito convencimento para ir onde não éramos chamados. Queríamos tudo ao mesmo tempo, como qualquer guri de dezesseis, dezessete: festas, bebidas, namoradas&#8230; Adolescência a pé e sem dinheiro, só nos restava ter criatividade. Juntamos os pilas que nossos pais nos deram para o ônibus, cheios de recomendação, e compramos duas garrafas de vinho tinto no boteco. Baita curtida, a gente achava: a festa começava às 19h e era no centro, coisa de uma hora de caminhada, regada a vinho, ruim e quente. Imaginem a cena, gurias. Nós três de banho tomado, camisa, gravata e sapato lustrado, no calorão de fevereiro. Penetra que se preze não chega atrasado. Quando saímos de casa ainda tinha sol alto. Não deu outra.</p>
<p>Enquanto o Marcelo cumprimentava os pais da tal Cris, o Lauro entrou de fininho. O segurança veio me revistar. Fui logo perguntando onde era o banheiro. O suor brotando na minha testa. Não era medo de ser descoberto. Era pior. Entrei como um temporal no banheiro e, ainda bem, deu tempo. O vinho não me caiu bem, pensei. Quem entrasse ali naquela hora pensaria em bicho morto há meses. Tateei um lado e outro do vaso, mas cadê papel higiênico? Nem sinal. Bêbado e apavorado, abri uma fresta da porta e não vi ninguém. Perto da pia uma toalha de rosto rendada, felizmente ao alcance da minha mão. Improvisei. Tive o cuidado de usar o verso do enfeite e depois recoloquei a toalha no lugar. Lavei as mãos com pressa e sai dali secando-as nas calças. Tonto, procurei os guris no salão. Fomos nos encostar na parede oposta ao banheiro, de onde podia ver a porta. Entrou um senhor careca vestindo o uniforme da equipe do bufê. Não tardou a sair, cheirando as mãos e esbravejando palavrões. Fiquei bem quieto. A façanha foi assunto de todo o caminho de volta. De vez em quando ainda é nos churrascos de beira de praia.       </p>
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		<title>Ao Papai Noel, uma carta</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 18:47:57 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Há dias me passa pela cabeça a ideia de escrever ao senhor, mas a vontade dá é passa, vai e volta. Mentira. A vontade fica aqui feito pisca-pisca, sim, mas não vai embora. É que fico meio sem jeito, sabe? Já faz tanto tempo desde a minha última carta. E o senhor nunca respondeu a nenhuma delas. Por acaso não aprendeu ainda a escrever? Se for esse o caso, aconselho: aprenda. Vá a uma escola o mais rápido possível, faça matrícula em uma turma de alfabetização de jovens e adultos e pegue esse poder para si. Vale a pena. Eu tenho acompanhado algumas experiências assim com crianças e ó, Papai Noel, é uma das coisas mais bonitas desse mundão ver a escrita saindo das mãos de uma pessoa. Se não aconteceu um pouco antes ou ao mesmo tempo, logo depois que alguém escreve pelas primeiras vezes normalmente nasce a leitura e o estalo da compreensão as apadrinha. Daí por diante vira vício, já aviso. É lista de supermercado, recado na porta da geladeira, nome no vapor do vidro do banheiro, bilhete embaixo do travesseiro, cartas, e-mails&#8230; O senhor vai entender.</p>
<p>Falando em e-mail, eu pensei nisso. Demorei tanto a começar a tal carta que me perdi no prazo. Estou, para variar, atrasada. Se o senhor se organiza da maneira como imagino, meu envelope vai chegar nas suas mãos ou nas de seus ajudantes leitores depois no Natal. Procurei seu endereço eletrônico no Google, mas não apareceu nenhuma direção confiável. Se pelo menos tivesse um perfil seu oficial no Facebook ou no Twitter (nem pense em Orkut, viu. Ninguém mais usa.) facilitaria a minha vida, mas não, o senhor não está na web e assim fica difícil curti-lo ou segui-lo às vésperas de 2012. Porque aquela história de que o Papai Noel está olhando pela fresta da janela para se certificar de que estou sendo boa menina não cola mais e, sinceramente, acho que não fica bem para sua imagem o hábito de assombração. Dos seres estranhos que me espiam desde a infância, o senhor sempre foi dos mais ternos. Sou grata. Mas não tome a minha observação como crítica. É um toque de amiga. Assim que tiver se apropriado da escrita, o senhor vai querer recrutar duendes especializados em tecnologia da informação e em design gráfico e terá pressa em criar um website todo seu. Vai por mim, no seu ramo de atuação isso não é tendência, é necessidade.</p>
<p>Reparou que meu assunto se reparte e dá voltas? Estou no fim do papel e ainda não falei do meu comportamento nem dos presentes que queria. O que me encorajou a fazer contato foi a reportagem que vi na tevê a respeito de adolescentes e de pais de família dos Estados Unidos que escreveram ao senhor pedindo roupas e emprego. Se a vida anda dura por lá, imagine no resto do planeta&#8230; Polêmica antiga, sabe como é a mídia, comentaram a possibilidade de o senhor não existir e em seguida mostraram o apelo dessas pessoas em meio a crise econômica do país gringo.</p>
<p>Claro que preparei uma lista com uns 27 itens: um carro vermelho embrulhado em plástico bolha de tão zero, um iPad, a mobília do apartamento, um DVD da Maria Gadu, um&#8230;, enfim, pensando bem, se seguir trabalhando dois turnos, arrumar um extra e deixar de lado meu complexo de centopeia consigo economizar e comprar meus próprios presentes antes do fim da década, afinal esse Natal eu já perdi mesmo e o senhor precisa se dedicar aos estudos. Cada um com as crises que lhe cabem, concorda? Apesar das minhas, o que eu mais quis esse ano foi ser uma menina. Confesso que fui boazinha quase sempre, e se o senhor for sensível entenderá que agora tanto faz se fui bacana ou se migrei para o lado negro da força: meu difícil é ser adulta. As vezes morro de medo e é com isso que queria sua ajuda. E Papai Noel traz presentes que não vende em loja? Ai, desculpa, mas acho que errei o destinatário. Eu deveria ter escrito ao Papai do Céu, né? Dizem que com ele sempre há tempo. Fiz confusão sem querer. Foi mal. Espero que na virada do ano o senhor veja os fogos de artifício e que invista logo no projeto que sugeri. Seria lindo receber uma carta sua. Eu acredito no senhor. E na escrita. Abraço apertado e feliz Ano Novo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=215&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Azaleia para erva de passarinho</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2011 00:34:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Não, ela disse, firme. Ele não entendeu. Ou não ouviu. Ou apenas ignorou. Ele estava lá desde o início, desde os primeiros dias. Dessa vez, assim que ela saiu da barriga da mãe, ele plantou-se ao seu lado, como erva de passarinho. Acompanhou, assombrou, atormentou, odiou, feriu, vociferou, aprendeu, aprisionou, amou, chorou, rezou, doeu, debochou, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=208&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não, ela disse, firme. Ele não entendeu. Ou não ouviu. Ou apenas ignorou. Ele estava lá desde o início, desde os primeiros dias. Dessa vez, assim que ela saiu da barriga da mãe, ele plantou-se ao seu lado, como erva de passarinho. Acompanhou, assombrou, atormentou, odiou, feriu, vociferou, aprendeu, aprisionou, amou, chorou, rezou, doeu, debochou, perdeu os pedaços, sempre ali, colado à sombra dela.</p>
<p>Não, ela suspeitou, quando começou a reparar ao redor e por dentro de si vestígios do improvável. Ele teve as primeiras pistas de que aquela era a pessoa certa, de que havia encontrado quem esteve tanto tempo à procura e exultou. Planejou, calculou, cercou o tempo e insistiu em fazer-se notar. Conseguiu.</p>
<p>Não, ela repetiu, quando passou a sentir a presença dele, primeiro aos domingos à noite, depois com mais frequência entre momentos de ócio, até que em todas as ocasiões, especialmente durante o sono. Ele desenhava labirintos mentais com maestria e, quando sedutor a atraía, quando furioso a forçava a andar por caminhos movediços, cobertos de cinzas de passado.</p>
<p>Não, ela gritou, em cada vez que ele se materializou nos corredores da casa, no canto do quarto, na fresta da porta aberta. Depois de alguns anos, ele entendeu que quanto mais perto chegava, mais fácil era manipular as sensações e os humores, mais matava da própria fome, mais penetrava nas veias, nas entranhas, nas células, nas memórias, nas vontades dela. Sugava a vitalidade e enfraquecia qualquer tentativa de resistência. Era um vício esse do estar junto. Nenhum dos dois sabe exatamente quando o predomínio dele a contaminou, mas aconteceu. É provável que tenha sido assim todas as vezes em que ela perdeu: a honra, o controle, a lucidez, a dignidade, a fé.</p>
<p>Não, ela pensou, com voz atravessada no nó da garganta. Dessa vez, ela estava nessa vida para ficar. Ele sempre ouviu os pensamentos dela. Sacudiu o emaranhado verde de carne decomposta que ocupava o espaço da mão direita, espantando o pensamento como quem enxota moscas inoportunas. As vezes ele chorava arrependido, falava e falava e falava sobre o amor desencontrado e perdido entre nasceres e morreres, encantava com tamanho entusiasmo trechos de história divida que ela acabava assaltada por lembranças. Compadecida e imersa em uma nuvem de quase ternura ela ficava à beira da aceitação.</p>
<p>Não, ela o espantou tantas vezes para quase morrer de remorso depois. Era praticamente um exorcismo por dia, além de uma série de rituais necessários adotados e abandonados ao longo dos anos. Mas ele permanecia. Houve épocas em que se afastava dois passos, outras em que se camuflava atrás das árvores, as vezes sumia por uma semana ou três. Houve um tempo em que alternava entre meses de silêncio e dias de não arredar o pé. Ele era um susto permanente. E uma companhia para sempre.</p>
<p>Mas, não e não, ela frisava, quando a afeição ameaçava tornar-se mais forte e maior do que o medo, a dúvida, a repulsa. Ele empurrava de um lado, ela respondia empurrando de outro. Cara e coroa, yin e yang, gangorra, vida esvaída no ralo da pia. Ela sempre indagando os por quês, ele sempre dando voltas, mostrando poderes e aparecendo, declarando motivos para todo o resto, menos para o ficar. Os agrônomos explicam que parasitas como a erva de passarinho podem até matar plantas tropicais se retirarem sua seiva por tempo prolongado e que não há remédio para exterminar essa erva daninha senão arrancá-la uma a uma dos galhos. Ela arrancava aqui e ele brotava, novamente, logo adiante.</p>
<p>Não, ela cantarolou ao som de um rock maluco-beleza, que a fazia recordar os espaços de trégua que ele lhe deu na adolescência e na maturidade, quando pôde vibrar e gargalhar e agradecer e amar madrugadas a fio. Quando esteve felizmente só e única. Quando esteve raramente em si. Quando esteve em outra, com outro. Não, aqui não,  ela escreveu pelas paredes da casa nova, tentando demarcar fronteiras. Em vão, percebeu em seguida. Não, através de mim, não, rugiu mostrando unhas afiadas quando ele insinuou uma provável continuidade. Ela estava tão ferida e confusa e ferida e confusa, que nem assim seria capaz de amá-lo, de desejar aquela presença sem olhos, de fraldas sujas correndo pela sala. Ela saberia e o recusaria terminantemente. Deixaria de morrer de medo, mas morreria de desgosto. E ela só lhe importava viva. Mesmo que vazia de vida.</p>
<p>Não, ela suplicou, exausta. A pele do corpo inteiro enrugada e frouxa sob um pijama azul. Andava pelas peças da casa, pintava a boca murcha com batom vermelho para sair, mas não cruzava a linha do primeiro degrau, a porta da rua. Enquanto ele esteve ali, e ele esteve sempre, ela andou ao redor de si como os cães fazem atrás do próprio rabo. Não foi longe, não foi a lugar algum. Tomada por medos que ninguém compreendia e forrada de certezas de papel de seda, nem por dentro teve condições de avançar. Ele não tinha olhos e deu-lhe a cegueira de herança. Ela investia, ensaiava corridas para rua, mas paralisava e perdia o rumo. Ela passou a esquecer os desejos que tinha, os telefones dos amigos, os programas de tevê que gostava de assistir, a quantidade de vestidos que havia acumulado, o lugar onde havia guardado as fotos dos seus melhores dias, a cor da tintura dos cabelos, onde teria guardado dinheiro.</p>
<p>Não. Não mesmo, ela sussurrou, sentada na cadeira de balanço deixada por algum parente no alpendre à entrada da casa, distante três passos do primeiro degrau da escada para a rua. Do lado esquerdo, sentado na pedra fria, estava ele bem quieto. Fazia um chuvisco sobre a grama não aparada e ele decidiu tocar no assunto. Porque ela já não tinha mais uma expressão de pavor estampada na testa, porque ela estava sentada ali, serena, embalando a cadeira para frente e para trás, porque ela tinha cabelos grisalhos longos amarrados em trança, porque ela era a mesma, ele resolveu finalmente abrir o jogo. Compreender a razão da presença dele tinha sido a batalha de uma vida inteira para ela, talvez o sentido, mesmo, de manter-se viva apesar dele sobre suas pegadas. Assim como negar foi espada, lança, foice, revólver, cuspe, lágrima, oração, perdão. Estar sempre armada roubou-lhe um punhado de sorrisos e a leveza. Então, ela que sempre foi Azaleia rosada, desistiu.</p>
<p>Não, iniciou aquele ser disforme, translúcido e cansado de insistir, eu não quis te machucar. Eu sempre estive aqui, contigo, porque. Um sorriso de gengivas gastas e o balanço mais forte da cadeira interromperam aquela confissão. Sim, balbuciou ela, eu sei. A cadeira balançou pela última vez. Ele ficou ao lado do corpo frio e inerte até a noite descer. Ele se perdeu.</p>
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		<title>Historinha de tapetes</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 07:52:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro&#8230; não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=196&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro&#8230; não sei como é possível ser tão espalhada. Pensei em aumentar o tapete, para o caso de um dia a imensidão interior resolver saltar ao lado de fora e para poder receber os amigos, os simpáticos e os desconhecidos. Eu sempre quis fazer coisas bonitas, mas o meu melhor foi esse tapete de lã fina, que era para não ser dividido e virou um convite a quem quisesse se acomodar.</p>
<p>Um dia eles começaram a chegar. Acho que gostaram do meu tapete, mas jamais entenderam o tom convidativo de nenhum dos meus atos. Então, primeiro eles cortaram as beiradas do meu tapete. E riram nas salas de portas fechadas. Depois, jogaram terra e pedras no meu tapete. Conseguiram sujar a minha roupa azul. Continuavam rindo, agora pelos cantos, cobrindo a boca com as mãos.</p>
<p>Eles vieram muitas vezes, fizeram várias tentativas. Não sei o que tinham contra o meu tapete. Um dia eles puxaram com força e o tiraram de mim. Enrolaram, pisaram em cima. E agora já não disfarçavam mais o riso. Gargalhavam alto e apontavam os indicadores em minha direção. Mas eu tinha uma ideia fixa nesse negócio de tapete e tive uma ideia muito boa. Brilhante, mesmo: passei a descrever o meu tapete para eles. Contei dos detalhes, das cores de que eu mais gostava, de como fazia para colocar cada fiapo de lã nos buracos da tela&#8230; Dessa vez eles não riram. Tenho a impressão de que se zangaram realmente comigo pela minha atitude. Mandaram- me parar.</p>
<p>Daí eu pensei que deveria estar fazendo errado, que meu relato estava saindo em voz muito baixa e esse era provavelmente o motivo da irritação deles. Eu não desisti. Meu-tapete-tem-ondas-amarelas-e-três-ostras-redondas&#8230;, comecei a dizer, aos gritos. Senti meu rosto quente na terceira bofetada, um pouco antes de perder a força de berrar. Fizeram-me calar. Mas eu havia feito o tapete mais bonito do meu mundo e desejava o reconhecimento alheio, precisava da acolhida deles para acreditar no meu talento excepcional de fazedora de tapetes, para convencer a mim mesma dessa tão rara competência artesanal, e o olhar furioso deles estava me sufocando como quando as crianças amarram acidentalmente sacolas do supermercado na cabeça e obstruem a entrada do ar pelo nariz e pela boca e quando o instante entre a agonia e o fim já durara mais do que o suportável, eu.</p>
<p>Eu pensei em fazer um tapete ainda mais bonito e confortável. E a experiência que adquiri fazendo o primeiro tapete me deu condições de arranjar os fios de lã de um jeito novo. Fui pensando, pensando, pensando cada linha desse outro tapete, e pensando com tanta força que o tecer mental quase fazia barulho. Terminei tão rápido que eles nem perceberam a trama. Estavam indo embora e um vento fez os cabelos da nuca de alguns deles arrepiar. Deram a volta, correram até mim e já sacavam canivetes dos bolsos quando levantei voo e sumi de suas vistas. Renderam-se ao tapete mais bonito que já haviam visto e não tinham a menor ideia de que poderiam fabricar os seus próprios tapetes mais bonitos do mundo.</p>
<br />Filed under: <a href='http://solsticios.wordpress.com/category/contos/'>Contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/196/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/196/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=196&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>De solas e asas no Prêmio Clube de Autores</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 23:51:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Será que a brincadeira funciona? Se der um tempinho, clica na capa e vota no livro que eu coloquei lá ontem. Encomendei um para ver como fica&#8230; Assim que chegar, conto como é tocar num livro próprio recém publicado.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=192&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Será que a brincadeira funciona?</p>
<p>Se der um tempinho, clica na capa e vota no livro que eu coloquei lá ontem.</p>
<p>Encomendei um para ver como fica&#8230; Assim que chegar, conto como é tocar num livro próprio recém publicado. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':D' class='wp-smiley' /> </p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=45579"><img class="aligncenter size-full wp-image-1726" title="solas" src="http://andreiapires.files.wordpress.com/2011/05/solas1.jpg?w=600" alt=""   /></a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=192&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Destino de títere</title>
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		<pubDate>Sat, 07 May 2011 01:29:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu poderia contar uma história colorida de fantoches, descrever a criação do cenário em papelão e tecido, narrar um conto de fada com varinhas mágicas, baús de tesouro, piratas bondosos, um final feliz. Mas eu preciso falar a verdade. Tenho esse compromisso com a realidade que não me deixa inventar, nem que seja para te [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=185&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu poderia contar uma história colorida de fantoches, descrever a criação do cenário em papelão e tecido, narrar um conto de fada com varinhas mágicas, baús de tesouro, piratas bondosos, um final feliz. Mas eu preciso falar a verdade. Tenho esse compromisso com a realidade que não me deixa inventar, nem que seja para te fazer rir. A títere morava em uma caixa de madeira sem pintura e passava a morte entre o vento e o cordão. De tempos em tempos.</p>
<p>Começava com a vertigem. Então os olhos se reviravam nas órbitas e ficavam voltados para o interior da cabeça, assistindo ao escuro de dentro. As pernas e os braços adormeciam e pareciam inchar. Esfregava os dedos das mãos, repetindo um mesmo movimento, insistente e incontrolável, primeiro discretamente, depois cada vez com mais força e ruído. As palavras iam pulando para fora da boca espremidas entre risos nervosos, gritos de socorro, choros, faísca de fôlego. De sua própria voz as vezes escapava entre as outras vozes: &#8220;Tenho medo, mãe&#8221;, &#8220;Me salva, me deixa sair&#8221;, &#8220;Me perdi. Eu vou morrer agora?&#8221;.</p>
<p>Uma tontura fria aumentava e eles vinham falar mais e mais. E diziam de seus pecados, de suas culpas, do prazer que havia no horror de criaturas como aquela, e praguejavam aos sussuros, ofendiam, debochavam, cravavam as unhas onde havia pele frágil, até que restasse apenas um risco de respiração. Os fios da boneca eram visíveis na vibração daqueles outros. De tempos em tempos as cordas ficavam claras, reluzentes, pulsantes e eles se enredavam nelas como mosquitos em uma teia oculta. Sempre agonia, vergonha, desordem.  Nós de cordão na garganta e a alma em pedaços. A exaustão era o fim. De cada episódio.</p>
<p>Começava com a vertigem e acabava dentro do mofo da caixa de madeira, os olhos redondos nos eixos, calados, assistindo a última fresta de luz apagar. Não terminava. Nunca terminava. Eles cansavam do jogo, mas então vinham outros e redescobriam o brinquedo. Destino.</p>
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		<title>Bailarinas brancas</title>
		<link>http://solsticios.wordpress.com/2011/04/06/bailarinas-brancas/</link>
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		<pubDate>Wed, 06 Apr 2011 01:37:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Vou subir por essa escadaria de mármore e me encontrar no alto, no último degrau onde danço nas pontas dos pés e aperto os olhos para ver o brilho da minha saia ao rodar no tempo. Seguro firme no corrimão e percorro a madeira escura pelos veios e percebo que coincidem com as veias azuladas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=176&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou subir por essa escadaria de mármore e me encontrar no alto, no  último degrau onde danço nas pontas dos pés e aperto os olhos para ver o  brilho da minha saia ao rodar no tempo. Seguro firme no corrimão e  percorro a madeira escura pelos veios e percebo que coincidem com as  veias azuladas dos meus braços, feito rios desenhados a linha.</p>
<p>Ergo  lentamente uma perna e pouso as sapatilhas, uma de cada vez, na  superfície lisa e fria que promete ser o meu apoio. A escada ainda se  forma, sempre que olho para o fim há uma nova curva e me busco aflita  com os olhos bem abertos: estou lá, vejo as bordas brancas do meu  vestido honesto. Mas por que pareço assim tão distante no topo desse  caracol?</p>
<p>Não sei, não sei pensar&#8230; Levo a mão à boca como quem  abafa o espanto e encontro em seu lugar um botão, sem casa. Não há  agulhas por perto, nem tesouras para forçar o abrigo. Quero alcançar  logo o degrau último ou abrir o buraco por onde a boca-botão possa  escapar ou se alojar e perco as forças.</p>
<p>Preciso deslizar para  cima e lembro das lesmas, penso nas asas que não tive e vejo as minhas  pernas prenderem fogo quando ainda faltam três para tocar em mim, três,  três intermináveis degraus, enquanto danço em luz sem me perceber.</p>
<p>Sinto  que posso me atingir se soprar bem forte, posso ouvir a minha presença e  estender a minha mão para a moça que se desintegra no caminho, mas me  falta o ar e a intenção. Dois pesos e a vertigem, um salto e o vazio.  Não sei se vejo o escuro ou o colorido. Não lembro se peguei na minha  mão ou desabei. Vi por dentro que veio o vento e pó.</p>
<p><em>Escrevi no dia 13 de julho de 2008 e escondi até agora, desde que travei o outro blog. Ainda gosto desse texto.</em></p>
<br />Filed under: <a href='http://solsticios.wordpress.com/category/contos/'>Contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/176/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/176/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=176&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Árvore ser</title>
		<link>http://solsticios.wordpress.com/2011/03/22/arvore-ser/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Mar 2011 18:59:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho os pés cravados na terra cinza de um lugar que, afinal, gera, acolhe e aporta a minha inconstância e a coerência torta enquanto as minhas mãos &#8211; palomas &#8211; fazem-se penas em direção a um céu de brilhos e libertação. Pés-raízes e mãos-passarinhos, prestes ao vôo, ligam-se por um corpo-tronco de casca frágil, mediando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=172&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://solsticios.files.wordpress.com/2011/03/c3a1rvore-ser.png"><img class="aligncenter size-medium wp-image-173" title="Árvore ser" src="http://solsticios.files.wordpress.com/2011/03/c3a1rvore-ser.png?w=324&#038;h=165" alt="" width="324" height="165" /></a>Tenho os pés cravados na terra cinza de um lugar que, afinal, gera, acolhe e aporta a minha inconstância e a coerência torta enquanto as minhas mãos &#8211; palomas &#8211; fazem-se penas em direção a um céu de brilhos e libertação.</p>
<p>Pés-raízes e mãos-passarinhos, prestes ao vôo, ligam-se por um corpo-tronco de casca frágil, mediando a urgência de ir e a necessidade de permanecer.</p>
<p>Vejo-me árvore. E de onde venho as árvores são capazes de elaborar asas luminosas.</p>
<p><em>* Escrevi no dia 12 de outubro de 2008, voltando de uma viagem. Não lembro qual&#8230;</em></p>
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		<title>El árbol de Navidad que se creía una princesa</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Jan 2011 12:06:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Ergueu-se raiz e azul Brotou-se tronco e cetim Vestiu-se folhas e vento Voou rosa e luz Encostou o nariz no céu. * metáfora visual de Nela Rio e poeminha meu. Aproveito a legenda de Rio para dar nome ao texto, também em homenagem a ela. Uma quase fada&#8230; Dedico aos amigos que me lêem. * [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=162&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Ergueu-se raiz e azul<br />
Brotou-se tronco e cetim<br />
Vestiu-se folhas e vento</p>
<p>Voou rosa e luz<br />
Encostou o nariz no céu.</p>
<p>*  metáfora visual de Nela Rio e poeminha meu. Aproveito a legenda de Rio  para dar nome ao texto, também em homenagem a ela. Uma quase fada&#8230;  Dedico aos amigos que me lêem.</p>
<p>* feito em 22 de dezembro de 2008. Ai, que saudade da Nela Rio. Esse texto foi musicado pelo amigo Alexandre, no projeto &#8220;Aclive&#8221;. No dia em que o disco sair, linko aqui.</p>
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		<title>Brechas no tempo suspenso</title>
		<link>http://solsticios.wordpress.com/2010/09/09/brechas-no-tempo-suspenso/</link>
		<comments>http://solsticios.wordpress.com/2010/09/09/brechas-no-tempo-suspenso/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 12:57:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[A meia-noite tem um compartimento secreto, uma arca, um baú de madeira antiga onde encerra a semente do tempo inteiro. Dentro do instante mudo e fogo fátuo de quando os ponteiros infinitos do relógio se encontram mora uma brecha de luz. Talvez nem tenhas percebido, mas nascem incontáveis meias-noites ao longo dos nossos longos dias, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=158&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A meia-noite tem um compartimento secreto, uma arca, um baú de madeira  antiga onde encerra a semente do tempo inteiro. Dentro do instante mudo e  fogo fátuo de quando os ponteiros infinitos do relógio se encontram  mora uma brecha de luz. Talvez nem tenhas percebido, mas nascem  incontáveis meias-noites ao longo dos nossos longos dias, e não falo das  metades exatas entre as 24 horas da rotação. O tempo nosso é uma  vertigem que o senso comum tenta acorrentar no pulso.</p>
<p>O marco zero na noite cava um buraco na alma, milímetros milenares, até  que o oco dá lugar a uma dimensão inesperada: o paralelo entre dentro e  fora se desdobra em mil cacos de vidro verde e aí, então, começa a  constância do sobressalto.</p>
<p>Quando dei por mim já estava plantada  nessa meia-noite reincidente, cheia de dores e dádivas, de terrores  miúdos na mesma medida das graças mágicas. Foi preciso dar outro sentido  ao habitual, recuperar rituais, limpar as lentes sujas dos óculos e  cutucar feridas que já formavam casca. Eu me joguei. Me atirei no tempo  como quem se lança no precipício. E apesar dos brilhos da queda,  absolutamente livre, senti dores lancinantes. Lan-ci-nan-tes,  atravessada por lanças pontudas? Pode ser, a imagem me veste.</p>
<p>Há para sempre essa hora nua da noite em que todos os espelhos do  castelo mostram o mesmo reflexo cru: múltiplos eus esfacelados. Eu sei  que te assusta, mas esses gritos de mulheres e de crianças são mesmo  reais. Esses lances de imagens que cruzam desavisadamente a tua cabeça  não são imaginação, nem as macas, nem os corpos em decomposição, nem os  homens que reviram os olhos, tampouco as borboletas e as fadas dos teus  cabelos. Estão todos lá, como que aprisionados numa dimensão de  labirinto.</p>
<p>É uma benção e também uma maldição. Meus  comprometimentos ancestrais me levam direto a essa porta fluida que uma  meia-noite abre. Entro toda vez, reincido na viagem. Se sinto medo há  sempre, sempre, sempre, alguém no escuro que me dá a mão, quente, e  garante que estou salva. Salva de mim e dos meus descontroles.</p>
<p>Naquele  celeiro, medieval talvez, talvez antes, no tronco rústico e largo em  que te amarraram com corda grossa pelos pés e te lançaram de cabeça para  baixo em direção ao fogo, eu estava lá. Eu estou lá ainda e te vejo  cair tantas vezes que me esvai a compaixão pelos poros, aqui deste lado  onde cravo os meus pés no chão. Abaixo de nós um círculo de fogo, dentro  dele uma estrela de triângulos interpenetrados, rasgando um abismo no  espaço onde parte da tua alma escorregou e ficou presa. Junto com a tua,  a minha, descobri esses dias.</p>
<p>Eu estou lá e volto tantas vezes  para te resgatar de ti e das atrocidades que cometemos em nome de uma  magia escura que não nos pagou sequer o pão. É a minha vez de te dar a  mão, porque já aprendi a colorir essa mesma magia, a negra, com lápis de  cor e a enfeitá-la com fitas do infinito para ouvir os sorrisos de quem  assassinei ou ajudei a matar a dignidade.</p>
<p>Não alcanço se fui  torturadora ou cúmplice, não lembro se me diverti, se me horrorizei ou  se não senti nada quando te obrigaram a agonizar, quando te dilaceraram  com a violação do corpo para punir com pregos enferrujados o teu  espírito, porque nós todos sabíamos: há máculas que exigem eras para  abrandarem, embora qualquer uma expire. Eu vi o sapo do tamanho de dois  palmos, o rato cinza, a barata, a cobra verde com o nó no meio, o  gafanhoto, o grilo e a mosca varejeira que te fizeram comer. Não impedi.  Talvez nós todos tenhamos rido da tua desgraça, não fui apenas eu tua  platéia e aposto que te lembras dos rostos, um por um.</p>
<p>As nossas  capas guardaram o que as pálpebras teimaram em silenciar, mas a  consciência no tempo é implacável. E hoje, entro nessa meia-noite  capsular para aportar naquela meia-noite e te ajudar a desfazer o  feitiço antigo. Volto para te pedir perdão. Quero que compreendas  comigo, meu companheiro, que a nossa inconseqüência se transformou em  flores azuis e já não há mais a necessidade da luta, mas de abraços.</p>
<p>Eu  já me desculpei. Entendi isso quando perdi o controle e voltei ao  galpão tantas vezes. Não voltava lá para te exorcizar da minha memória  nem para expurgar das minhas veias aquele homem que revirava os olhos, o  que desenhou um triângulo de sangue na minha barriga com o punhal, nem  aqueles magos do escuro cuja imagem meus olhos astrais bloquearam, para  não me assombrar além da conta aqui na vida do lado de cá. No momento em  que atravessei aquela meia-noite nós nos encontramos no ar, amigo. Eu  fui te buscar para mostrar a minha gravidez. Tenho gerado o bem no  ventre do sempre, e queria que o teu perdão o apadrinhasse.</p>
<p>Chorei  com força, porque ao te ver pendurado duvidei ser capaz de suportar  reviver o nosso horror. Mas não estava só. Entrar na meia-noite não é  jamais uma viagem que se faça desacompanhada. Espero que tenhas visto  chegar do tempo, no galpão do fogo, as mesmas pessoas que uma vez  humilharam o teu corpo e a tua alma tão profundamente. Nós todos fomos  te buscar com frutas maduras nos bolsos, com presentes místicos da vida  inteira, coroas de ervas sagradas de chá, e a vontade aguda de perdão.  Era nosso compromisso te desamarrar da memória.</p>
<p>Depois disso, o  círculo com a estrela de fogo do chão passou a me acompanhar. Senti-o na  minha testa e também pude vê-lo estampado na fronte dos meus velhos  companheiros. E há uma dormência branca que sussurra no meu ouvido: &#8220;a  redenção está no reencontro. Vocês já podem ver o sol&#8221;. E sabes? Eu gosto mesmo de ver o sol,  meu caro amigo vestido de padre. Abandona essa tua batina surrada e vem  comigo vestir o sol por dentro. Nós merecemos. Já nos abriram a porta e  nos chamam sorridentes para sair da fenda na meia-noite.</p>
<p><em>Gosto muito desse texto. Marca uma época muiiito importante. Foi escrito em 09 de junho de 2008.</em></p>
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