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	<title>Solstícios</title>
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		<title>Solstícios</title>
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		<title>De mudança</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Apr 2012 15:30:34 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Então que mudou a vida completamente, gente. Desde de que mudei de casa, literalmente, as coisas estão mudando em mim. Inevitavelmente. Para todos os lados que olho há bagunça, sacolas, caixas, papéis, memórias. Tenho pensado bastante em como dar ordem a todos esses caos e não são muitas as ideias que me ocorrem que não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=242&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Então que mudou a vida completamente, gente. Desde de que mudei de casa, literalmente, as coisas estão mudando em mim. Inevitavelmente. Para todos os lados que olho há bagunça, sacolas, caixas, papéis, memórias. Tenho pensado bastante em como dar ordem a todos esses caos e não são muitas as ideias que me ocorrem que não exijam grana, coisa que anda curta por aqui. Nessa situação, três, quatro blogs ajudam a completar a sensação de total desorganização. Como tenho feito na vida real, começo a faxina online juntando os blogs numa casa só: o literário, o pessoal, os projetos, as notícias, as pesquisas, tudo. E vão para onde? Para um novo endereço, criado para divulgar a boa notícia de 2012. É que o livro “De solas e asas”, minha primeira experiência em publicação autoral, está chegando. É bom, é novo, é novidade. Cartas, comentários e espiadas endereçadas à Andréia Pires, favor encaminhar para: <a href="http://www.desolaseasas.blogspot.com/">www.desolaseasas.blogspot.com</a> a partir de hoje. Foi lindo enquanto durou, Solstícios.</p>
<p><a href="http://solsticios.files.wordpress.com/2012/04/cab21.jpg"><img class="size-full wp-image" src="http://solsticios.files.wordpress.com/2012/04/cab21.jpg?w=487" alt="Imagem" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/242/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=242&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>De brincadeira</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Apr 2012 15:13:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado, dia internacional da faxina, a Rose acorda sempre cedo, toma um café preto curtinho com duas bolachas de nata e cumpre o ritual: abre as janelas da casa, põe a roupa na máquina de lavar, aspira a sala e os dois quartos, tira o pó de todos os móveis, varre a cozinha e o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=230&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado, dia internacional da faxina, a Rose acorda sempre cedo, toma um café preto curtinho com duas bolachas de nata e cumpre o ritual: abre as janelas da casa, põe a roupa na máquina de lavar, aspira a sala e os dois quartos, tira o pó de todos os móveis, varre a cozinha e o banheiro e já passa o pano úmido enrolado na vassoura em todo o piso frio. Estende a roupa no varal, dá uma geral na varanda, troca a água e renova a ração do cachorro e, para o almoço, prepara um macarrão com bastante molho de tomate, do jeito que o Renato gosta. O Renato chega da borracharia, devora mais de meia panela de macarrão com um pacote de queijo ralado por cima, limpa a boca na beirada da toalha da mesa, agradece a refeição e se atira no sofá, onde irá ficar a tarde inteira. Para o sossego da Rose, que calmamente termina a sua porção do almoço e não repete, retira os pratos, lava a louça, seca, guarda, e enfim, parte para a segunda etapa da limpeza. Tem hora marcada no salão da Valquíria às 15h. Maravilha.</p>
<p>Queriiida, hoje é repaginada total, né? Retoque de raiz, corte, unhas, depilação, sobrancelha, buço, tudo, que a tua carinha tá pedindo um cuidado, amor&#8230; Como tá a vida? E o bofe? A Valquíria falava com tanta pressa que só de ouvir Rose cansava. E se entregava. Nem fazia questão de saber a coloração que seria aplicada nos fios e o esmalte, nem precisava dizer, o rosa clarinho de toda a vez, a manicure já decorou. Touca térmica nos cabelos por uns vinte minutos, Rose esperava a moça começar o trabalho nas unhas dos pés. Ao seu lado, duas senhoras trocavam figurinhas domésticas com entusiasmo. Rose em silêncio prestava atenção.</p>
<p>O meu é um traste. Pior que não posso reclamar. Sempre foi assim, imprestável. Agora, trabalha que nem bicho nas obras da estrada, chega em casa acabado, atirando as botas e as roupas pelo chão, faz uma bagunça&#8230; Mas o sexo é bom, guria. Nunca me deixou faltar nada, dizia uma. Ai, lá em casa quem manda sou eu, trago o Zé num cortado. Onde se viu espalhar roupa. Faço catar na hora. Homem comigo não se cria. O dinheiro é que tá apertado. A gente se defende com as semi-joias que eu vendo. Não fosse isso&#8230; Ele é bonzinho, mas tem pouca fibra, sabe? Muito sensível. Vira e mexe se deprime. Vou levando por causa das crianças, completou a outra.</p>
<p>Rose ouvia e sentia um calor subindo pela barriga, queria entrar na conversa, mas ficava chato se intrometer assim, e o calor aumentando, comentava ou não, o que aquelas mulheres iriam pensar dela. Disse: meu marido me sufoca. As senhoras olharam direto para Rose e uma delas, curiosa, tentou adivinhar. Deve ser daqueles ciumentos, que vasculha celular, mexe da bolsa. A outra supôs diferente, ou é dos que se metem, que querem mandar na escolha da batata, no tipo de amaciante de roupa, no horário da gente ir tomar banho&#8230; Não. Ele me sufoca, repetiu Rose. Como assim, as duas queriam saber. Ele me sufoca todo dia um pouquinho na hora de dormir. Geralmente eu deito mais cedo e ele fica vendo tevê. Aí, pega o travesseiro e aperta sobre o meu rosto. Acordo apavorada, me debatendo. Depois ele solta e ri. Parei de perguntar por que faz isso. Só diz que é brincadeira, que me ama, e então me cobre de beijos. Brincadeira sem graça, mas já me acostumei.</p>
<p>Que absurdo, mulher! Isso é criminoso, até, julgou uma das senhoras, com olhos arregalados. Tu não conheces a lei Maria da Penha, guria, questionou a outra. Não admite uma coisa dessas. Denuncia. E a Rose virou assunto principal. Não contou para chocar ninguém, ela só queria compartilhar uma coisa só sua. Enquanto as duas tagarelavam, Rose pensava. Voltou para casa assim, arquitetando uma forma de participar do jogo do marido. Resolveu que naquela noite iria mostrar que também tinha senso de humor. Estava ansiosa, não conseguiu dormir. Fingiu. Não demorou, Renato puxou o travesseiro atrás da cabeça e colocou contra o rosto da esposa. Apertou. Rose não reagiu. Apertou mais. E Rose nada. Renato estranhou, mas tentou novamente antes de erguer o travesseiro e perceber que a mulher não respirava mais. Finalmente, havia entrado na brincadeira do marido. Era uma debochada, essa Rose.</p>
<br />Filed under: <a href='http://solsticios.wordpress.com/category/contos/'>Contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/230/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/230/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=230&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Agulha número 4</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Mar 2012 15:48:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[De repente, tudo o que se fala tem a ver com bebês. Descoberta de gravidez, previsão de chegada, batimentos cardíacos normais, ultrassons, chás de bebê, decoração de quarto de recém nascida, partos sem grandes traumas, visita à maternidade, estado de graça, babação, fotos e mais fotos, muito contentamento. Adoro crianças, especialmente as menores, e acho [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=227&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De repente, tudo o que se fala tem a ver com bebês. Descoberta de gravidez, previsão de chegada, batimentos cardíacos normais, ultrassons, chás de bebê, decoração de quarto de recém nascida, partos sem grandes traumas, visita à maternidade, estado de graça, babação, fotos e mais fotos, muito contentamento. Adoro crianças, especialmente as menores, e acho que essa movimentação de vida que começa dá uma leveza ímpar aos humores das pessoas, faz durar nosso estado de alegria. Tenho reparado até certa cobrança, afinal de contas quando se cumprem as regras sociais que dão origem às famílias no sentido tradicional não é apenas o relógio biológico que pede satisfações. Apesar de a última semana ter sido cheia de notícias assim, há uma lembrança sobre gestação que dá voltas na minha cabeça, uma história difícil.</p>
<p>A Laura nunca foi do tipo que arrasta tristeza pelo chão, mas nos últimos meses olhava para sua vida e não conseguia ver nada de bonito, de colorido, de seu. Do lado de fora da porta de entrada, aconchegada sob o cobertor na cadeira de balanço, ela desembrulhou sem entusiasmo o presente de Daniel. Era a décima oitava terça-feira desde aquele dia e o primo insistia em fabricar uma intimidade que, por Laura, jamais teria lugar para existir. Os dois foram criados muito próximos e os parentes tratavam com naturalidade a mania que ele tinha de cercá-la. Um dia isso passa, comentavam após almoços, deixa ele conhecer mulher, garantiam os tios. Mas não passou. Numa manhã bem cedo Daniel valeu-se da ausência dos pais de Laura na casa do campo, entrou sem fazer barulho, subiu as escadas, abriu a porta do quarto dela e entrou. Houve grito, houve socos, houve choro e pedido de socorro, mas não havia ninguém por perto, com ouvidos de ouvir. </p>
<p>Dentro da caixa do presente, novelos de lã vermelha e sapatinhos de bebê recortados da revista. Perdeu o que restava de graça a Laura, que nos últimos dias sentava no mesmo lugar, na mesma hora, a tricotar um blusão cinza de gola alta. Pensou na avó paterna, que lhe ensinou a colocar os pontos na agulha e a tramar as primeiras carreiras. Lembrou da rigidez da velha e quase ouviu a voz grave de repreensão: isso não é ponto que se dê, criatura! Apertado desse jeito, vai terminar um ninho de camundongos o teu tricô. Pode desmanchar e fazer de novo, com decência. Teve medo de imaginar como a avó a trataria se fosse viva e soubesse que.</p>
<p>Sabia que estava perdida, nem sinal de menstruação. Confirmou o adiantado do blusão, já tinha as mangas e as costas prontas. Começava a frente com as agulhas mais finas, de número 4, como havia aprendido. Quinze, dezesseis, dezessete pontos, aflição. Olha, não é que eu não te queira, não é isso. Vinte e nove, trinta. Eu não posso contigo e não suporto de onde tu vens. Não tenho um corpo que possa te servir de casa em tempo algum. Do meu desgosto jamais nasceria exemplo e retidão de heranças para ti. Eu não tenho nada de bom para te oferecer, nem buscando lá no fundo. Cinquenta e cinco. Não sou nada. Acho que nunca cheguei a ser. Laura dizia coisa para dentro, numa conversa longa e necessária, sem perder-se nas contas.</p>
<p>Respirou fundo e, decidida, arrancou a agulha dos pontos, passando-a para baixo do cobertor. Sem provocar suspeitas dos pais que iam e vinham do campo e entravam na casa com frequência, envolvidos que estavam com as ovelhas, puxou com calma a saia para cima das coxas, arredou a calcinha para o lado com uma das mãos. Segurou firmemente a agulha e cravou o próprio ventre. Diversas vezes. Aguentou a dor sem choro até o fim. Até o frio. Anoitecia e Laura tinha olhos vidrados no horizonte de árvores verdes.</p>
<br />Filed under: <a href='http://solsticios.wordpress.com/category/contos/'>Contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/227/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/227/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=227&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Entre o chilique e o safanão</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Feb 2012 15:20:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Chilique. Todo mundo já viu ou já deu um. Normal. Na fila do banco ao meio-dia em início de mês. Diante da prateleira do iogurte no supermercado – como assim não tem aquele milagroso que faz a gente tirar a canguinha?, três pontos de interrogação e uma ruga no meio da testa. Entre a multidão, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=223&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chilique. Todo mundo já viu ou já deu um. Normal. Na fila do banco ao meio-dia em início de mês. Diante da prateleira do iogurte no supermercado – como assim não tem aquele milagroso que faz a gente tirar a canguinha?, três pontos de interrogação e uma ruga no meio da testa. Entre a multidão, logo que anoitece em uma dessas festas populares da região, na beira do cais. No ônibus lotado de pessoas com sacolas na parte da frente do veículo e de estudantes com mochilas nas costas na parte de trás. Por baixo daquele “nada” repetido oito vezes nas últimas duas horas para o namorado e ele: ah, mas tem alguma coisa errada? E um ataque de gritos por baixo do rosto de paisagem.</p>
<p>Há chiliques e chiliques. Quando é o outro quem protagoniza o faniquito a gente sente junto: vergonha alheia ou solidariedade imediata, por vezes dor de barriga. É contagioso. Dia desses, coisa rara, vesti meu tênis e arrisquei a saudável caminhada de uma hora na rua. Tinha ótima companhia, não conto quem. Minutos antes da meia-volta, dobrava a esquina um senhor sossegado, com um pacote na mão. Se não fôssemos moradores desde sempre da cidade do cinza e, por isso, conhecedores de personagens ilustres das redondezas, jamais suspeitaríamos do surto iminente. Ia dar zebra. E deu.</p>
<p>O caso é que de encontro ao senhorzinho vinham os guris de skate. Guris mesmo, de no máximo 11 anos e muita falta de noção. O primeiro passou raspando e fazendo barulho há centímetros dos pés do homem, que já resmungou. Atrás veio o segundo cheio de si, aos gritos e ameaças de pontapés. Depois um terceiro diminuiu a velocidade e riu apreensivo. O senhor revidou, deu socos no ar, deixou o pacote cair. Ensaiou uma corrida atrás dos skatistas. O último guri aproveitou-se do momento de fragilidade do adulto e, tirando coragem e mais um punhado de deseducação do bolso, investiu contra ele, repetindo o comportamento dos anteriores.</p>
<p>Do outro lado da rua, nós e mais umas duas pessoas distantes pelo menos uma quadra do enrosco não sabíamos o que fazer. Socorrer o homem? Evitar que ele acertasse os meninos? Fazer de conta que não havíamos reparado? Foi tudo muito rápido. A briga se desfez por si, após o pacote ser chutado pelo segundo guri em direção aos carros. Eu fiquei com a dor de barriga. Perdi o rumo do exercício físico e por mim, se tivesse dinheiro, teria entrado no primeiro táxi e voltado para casa de mamãe. Ainda bem, alguém sacudiu meu braço evitando que eu me enrolasse nos cachorros na calçada. Eles estavam no caminho, muito na deles, como o senhor do pacote segundos antes.</p>
<p>Costumo ver esse senhor dormindo sob marquises em prédios pouco movimentados no centro. As vezes encontro-o explorando os contêineres de lixo, dividindo restos de comida com gatos. Já o vi falando sozinho e com o poste, andando na rua com roupa suja e esfarrapada, com todo jeito de quem saltou para o outro lado da sanidade. Um surtado nível 10 estrelinha, do tipo clássico. Pedindo dinheiro nunca vi. Posso apostar que para ele aquele não era um dia qualquer. Se não havia tomado banho, pelo menos vestia roupas limpas e tinha o cabelo penteado para trás. Não sei o que trazia no pacote, mas podia ser especial. Naquele dia, o cara estava sossegado. Mas deu azar de ser vítima do chilique dos outros.</p>
<p>Percorri a metade da hora de caminhada que me restavaem silêncio. Estavaconcentrada, avisei. Na verdade, estava presa naquele episódio. Fiquei pensando no homem e nos guris. Mais no homem, pois os guris ainda têm muito tempo e gente que os sacuda pelos braços. Quis que ele tivesse por perto alguém, cheio de afeto, capaz de dar-lhe um safanão de leve, tirando-o da condição crônica de surto, pelo menos uma vez por dia. Algo assim saudável como uma caminhada.</p>
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		<title>Ousadia de penetra</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 18:21:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem gente que passa uma vida inteira se esforçando para avançar os próprios limites, tentando provar para deus e o mundo das liberdades e dos arrojos de que é capaz. Está assim de gente que bate o pé para explicar que apesar de cumprir rigorosamente as leis desse país e de usar com constância as [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=219&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem gente que passa uma vida inteira se esforçando para avançar os próprios limites, tentando provar para deus e o mundo das liberdades e dos arrojos de que é capaz. Está assim de gente que bate o pé para explicar que apesar de cumprir rigorosamente as leis desse país e de usar com constância as palavras mágicas em sinal de respeito e cortesia aos demais tem plenas condições de, eventualmente, sair da linha e mandar às favas a etiqueta social. Gente para quem pintar as unhas dos pés de Azul Pavão nas férias seja atestado incontestável de ousadia. E tem aquelas pessoas que nascem equipadas com um atrevimento espontâneo, que primeiro disparam para depois reparar onde foram se alojar os estilhaços. Essas que vivem entrando e saindo de apuros, suspeito que se divirtam mais. Mas estou convencida de que donos de histórias hilárias para contar são os ousados extremados, aqueles que conseguem calar. As vezes silêncio é audácia pura. É o caso do Tadeu.</p>
<p>Lauro acordou cedo e espiou a rua. Combinação rara folga e calor, melhor não desperdiçar. Chamou os amigos por telefone, que toparam o churrasco na praia, no almoço. Tadeu pedalou até encontrar o fusca do Lauro ao lado da Kombi do Marcelo. Lascas de carne já circulavam. Em tempo, pensou. Estacionou a magrela na sombra da Kombi e ouviu aplausos. Trouxe o arroz para o carreteiro, Tadeu? Marcelo, sempre a pegar no pé. Parceiros desde guris, compadres na vida adulta, o trio se encontra sempre que dá. Abriu a cadeira de praia que haviam separado para ele e sentou na roda. O papo era sobre a festa de Júlia, filha do Marcelo que em breve completaria 15 anos. Daí para relembrarem a época em que os três peregrinavam por festas de debutantes foi um pulo. Conta aquela, Tadeu, do aniversário da Cris, pediu Lauro. As esposas dos amigos de orelhas em pé, queriam saber. Marcelo caiu na gargalhada. Não conseguia falar de tanto rir. Quando respirou fundo, engrossou o coro: conta Tadeu. E esperou que o amigo ruborizasse, mas não. Tadeu era um sacana. Deu um gole na cerveja e começou.</p>
<p>Olha, não sei nem que cara tinha essa Cris, mas do meu aperto lembro bem. Para variar, Lauro e eu não tínhamos sido convidados, mas o Marcelo, sim. E naqueles tempos a gente não precisava de muito convencimento para ir onde não éramos chamados. Queríamos tudo ao mesmo tempo, como qualquer guri de dezesseis, dezessete: festas, bebidas, namoradas&#8230; Adolescência a pé e sem dinheiro, só nos restava ter criatividade. Juntamos os pilas que nossos pais nos deram para o ônibus, cheios de recomendação, e compramos duas garrafas de vinho tinto no boteco. Baita curtida, a gente achava: a festa começava às 19h e era no centro, coisa de uma hora de caminhada, regada a vinho, ruim e quente. Imaginem a cena, gurias. Nós três de banho tomado, camisa, gravata e sapato lustrado, no calorão de fevereiro. Penetra que se preze não chega atrasado. Quando saímos de casa ainda tinha sol alto. Não deu outra.</p>
<p>Enquanto o Marcelo cumprimentava os pais da tal Cris, o Lauro entrou de fininho. O segurança veio me revistar. Fui logo perguntando onde era o banheiro. O suor brotando na minha testa. Não era medo de ser descoberto. Era pior. Entrei como um temporal no banheiro e, ainda bem, deu tempo. O vinho não me caiu bem, pensei. Quem entrasse ali naquela hora pensaria em bicho morto há meses. Tateei um lado e outro do vaso, mas cadê papel higiênico? Nem sinal. Bêbado e apavorado, abri uma fresta da porta e não vi ninguém. Perto da pia uma toalha de rosto rendada, felizmente ao alcance da minha mão. Improvisei. Tive o cuidado de usar o verso do enfeite e depois recoloquei a toalha no lugar. Lavei as mãos com pressa e sai dali secando-as nas calças. Tonto, procurei os guris no salão. Fomos nos encostar na parede oposta ao banheiro, de onde podia ver a porta. Entrou um senhor careca vestindo o uniforme da equipe do bufê. Não tardou a sair, cheirando as mãos e esbravejando palavrões. Fiquei bem quieto. A façanha foi assunto de todo o caminho de volta. De vez em quando ainda é nos churrascos de beira de praia.       </p>
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		<title>Ao Papai Noel, uma carta</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 18:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Há dias me passa pela cabeça a ideia de escrever ao senhor, mas a vontade dá é passa, vai e volta. Mentira. A vontade fica aqui feito pisca-pisca, sim, mas não vai embora. É que fico meio sem jeito, sabe? Já faz tanto tempo desde a minha última carta. E o senhor nunca respondeu a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=215&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há dias me passa pela cabeça a ideia de escrever ao senhor, mas a vontade dá é passa, vai e volta. Mentira. A vontade fica aqui feito pisca-pisca, sim, mas não vai embora. É que fico meio sem jeito, sabe? Já faz tanto tempo desde a minha última carta. E o senhor nunca respondeu a nenhuma delas. Por acaso não aprendeu ainda a escrever? Se for esse o caso, aconselho: aprenda. Vá a uma escola o mais rápido possível, faça matrícula em uma turma de alfabetização de jovens e adultos e pegue esse poder para si. Vale a pena. Eu tenho acompanhado algumas experiências assim com crianças e ó, Papai Noel, é uma das coisas mais bonitas desse mundão ver a escrita saindo das mãos de uma pessoa. Se não aconteceu um pouco antes ou ao mesmo tempo, logo depois que alguém escreve pelas primeiras vezes normalmente nasce a leitura e o estalo da compreensão as apadrinha. Daí por diante vira vício, já aviso. É lista de supermercado, recado na porta da geladeira, nome no vapor do vidro do banheiro, bilhete embaixo do travesseiro, cartas, e-mails&#8230; O senhor vai entender.</p>
<p>Falando em e-mail, eu pensei nisso. Demorei tanto a começar a tal carta que me perdi no prazo. Estou, para variar, atrasada. Se o senhor se organiza da maneira como imagino, meu envelope vai chegar nas suas mãos ou nas de seus ajudantes leitores depois no Natal. Procurei seu endereço eletrônico no Google, mas não apareceu nenhuma direção confiável. Se pelo menos tivesse um perfil seu oficial no Facebook ou no Twitter (nem pense em Orkut, viu. Ninguém mais usa.) facilitaria a minha vida, mas não, o senhor não está na web e assim fica difícil curti-lo ou segui-lo às vésperas de 2012. Porque aquela história de que o Papai Noel está olhando pela fresta da janela para se certificar de que estou sendo boa menina não cola mais e, sinceramente, acho que não fica bem para sua imagem o hábito de assombração. Dos seres estranhos que me espiam desde a infância, o senhor sempre foi dos mais ternos. Sou grata. Mas não tome a minha observação como crítica. É um toque de amiga. Assim que tiver se apropriado da escrita, o senhor vai querer recrutar duendes especializados em tecnologia da informação e em design gráfico e terá pressa em criar um website todo seu. Vai por mim, no seu ramo de atuação isso não é tendência, é necessidade.</p>
<p>Reparou que meu assunto se reparte e dá voltas? Estou no fim do papel e ainda não falei do meu comportamento nem dos presentes que queria. O que me encorajou a fazer contato foi a reportagem que vi na tevê a respeito de adolescentes e de pais de família dos Estados Unidos que escreveram ao senhor pedindo roupas e emprego. Se a vida anda dura por lá, imagine no resto do planeta&#8230; Polêmica antiga, sabe como é a mídia, comentaram a possibilidade de o senhor não existir e em seguida mostraram o apelo dessas pessoas em meio a crise econômica do país gringo.</p>
<p>Claro que preparei uma lista com uns 27 itens: um carro vermelho embrulhado em plástico bolha de tão zero, um iPad, a mobília do apartamento, um DVD da Maria Gadu, um&#8230;, enfim, pensando bem, se seguir trabalhando dois turnos, arrumar um extra e deixar de lado meu complexo de centopeia consigo economizar e comprar meus próprios presentes antes do fim da década, afinal esse Natal eu já perdi mesmo e o senhor precisa se dedicar aos estudos. Cada um com as crises que lhe cabem, concorda? Apesar das minhas, o que eu mais quis esse ano foi ser uma menina. Confesso que fui boazinha quase sempre, e se o senhor for sensível entenderá que agora tanto faz se fui bacana ou se migrei para o lado negro da força: meu difícil é ser adulta. As vezes morro de medo e é com isso que queria sua ajuda. E Papai Noel traz presentes que não vende em loja? Ai, desculpa, mas acho que errei o destinatário. Eu deveria ter escrito ao Papai do Céu, né? Dizem que com ele sempre há tempo. Fiz confusão sem querer. Foi mal. Espero que na virada do ano o senhor veja os fogos de artifício e que invista logo no projeto que sugeri. Seria lindo receber uma carta sua. Eu acredito no senhor. E na escrita. Abraço apertado e feliz Ano Novo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/215/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/215/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=215&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Azaleia para erva de passarinho</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2011 00:34:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Não, ela disse, firme. Ele não entendeu. Ou não ouviu. Ou apenas ignorou. Ele estava lá desde o início, desde os primeiros dias. Dessa vez, assim que ela saiu da barriga da mãe, ele plantou-se ao seu lado, como erva de passarinho. Acompanhou, assombrou, atormentou, odiou, feriu, vociferou, aprendeu, aprisionou, amou, chorou, rezou, doeu, debochou, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=208&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não, ela disse, firme. Ele não entendeu. Ou não ouviu. Ou apenas ignorou. Ele estava lá desde o início, desde os primeiros dias. Dessa vez, assim que ela saiu da barriga da mãe, ele plantou-se ao seu lado, como erva de passarinho. Acompanhou, assombrou, atormentou, odiou, feriu, vociferou, aprendeu, aprisionou, amou, chorou, rezou, doeu, debochou, perdeu os pedaços, sempre ali, colado à sombra dela.</p>
<p>Não, ela suspeitou, quando começou a reparar ao redor e por dentro de si vestígios do improvável. Ele teve as primeiras pistas de que aquela era a pessoa certa, de que havia encontrado quem esteve tanto tempo à procura e exultou. Planejou, calculou, cercou o tempo e insistiu em fazer-se notar. Conseguiu.</p>
<p>Não, ela repetiu, quando passou a sentir a presença dele, primeiro aos domingos à noite, depois com mais frequência entre momentos de ócio, até que em todas as ocasiões, especialmente durante o sono. Ele desenhava labirintos mentais com maestria e, quando sedutor a atraía, quando furioso a forçava a andar por caminhos movediços, cobertos de cinzas de passado.</p>
<p>Não, ela gritou, em cada vez que ele se materializou nos corredores da casa, no canto do quarto, na fresta da porta aberta. Depois de alguns anos, ele entendeu que quanto mais perto chegava, mais fácil era manipular as sensações e os humores, mais matava da própria fome, mais penetrava nas veias, nas entranhas, nas células, nas memórias, nas vontades dela. Sugava a vitalidade e enfraquecia qualquer tentativa de resistência. Era um vício esse do estar junto. Nenhum dos dois sabe exatamente quando o predomínio dele a contaminou, mas aconteceu. É provável que tenha sido assim todas as vezes em que ela perdeu: a honra, o controle, a lucidez, a dignidade, a fé.</p>
<p>Não, ela pensou, com voz atravessada no nó da garganta. Dessa vez, ela estava nessa vida para ficar. Ele sempre ouviu os pensamentos dela. Sacudiu o emaranhado verde de carne decomposta que ocupava o espaço da mão direita, espantando o pensamento como quem enxota moscas inoportunas. As vezes ele chorava arrependido, falava e falava e falava sobre o amor desencontrado e perdido entre nasceres e morreres, encantava com tamanho entusiasmo trechos de história divida que ela acabava assaltada por lembranças. Compadecida e imersa em uma nuvem de quase ternura ela ficava à beira da aceitação.</p>
<p>Não, ela o espantou tantas vezes para quase morrer de remorso depois. Era praticamente um exorcismo por dia, além de uma série de rituais necessários adotados e abandonados ao longo dos anos. Mas ele permanecia. Houve épocas em que se afastava dois passos, outras em que se camuflava atrás das árvores, as vezes sumia por uma semana ou três. Houve um tempo em que alternava entre meses de silêncio e dias de não arredar o pé. Ele era um susto permanente. E uma companhia para sempre.</p>
<p>Mas, não e não, ela frisava, quando a afeição ameaçava tornar-se mais forte e maior do que o medo, a dúvida, a repulsa. Ele empurrava de um lado, ela respondia empurrando de outro. Cara e coroa, yin e yang, gangorra, vida esvaída no ralo da pia. Ela sempre indagando os por quês, ele sempre dando voltas, mostrando poderes e aparecendo, declarando motivos para todo o resto, menos para o ficar. Os agrônomos explicam que parasitas como a erva de passarinho podem até matar plantas tropicais se retirarem sua seiva por tempo prolongado e que não há remédio para exterminar essa erva daninha senão arrancá-la uma a uma dos galhos. Ela arrancava aqui e ele brotava, novamente, logo adiante.</p>
<p>Não, ela cantarolou ao som de um rock maluco-beleza, que a fazia recordar os espaços de trégua que ele lhe deu na adolescência e na maturidade, quando pôde vibrar e gargalhar e agradecer e amar madrugadas a fio. Quando esteve felizmente só e única. Quando esteve raramente em si. Quando esteve em outra, com outro. Não, aqui não,  ela escreveu pelas paredes da casa nova, tentando demarcar fronteiras. Em vão, percebeu em seguida. Não, através de mim, não, rugiu mostrando unhas afiadas quando ele insinuou uma provável continuidade. Ela estava tão ferida e confusa e ferida e confusa, que nem assim seria capaz de amá-lo, de desejar aquela presença sem olhos, de fraldas sujas correndo pela sala. Ela saberia e o recusaria terminantemente. Deixaria de morrer de medo, mas morreria de desgosto. E ela só lhe importava viva. Mesmo que vazia de vida.</p>
<p>Não, ela suplicou, exausta. A pele do corpo inteiro enrugada e frouxa sob um pijama azul. Andava pelas peças da casa, pintava a boca murcha com batom vermelho para sair, mas não cruzava a linha do primeiro degrau, a porta da rua. Enquanto ele esteve ali, e ele esteve sempre, ela andou ao redor de si como os cães fazem atrás do próprio rabo. Não foi longe, não foi a lugar algum. Tomada por medos que ninguém compreendia e forrada de certezas de papel de seda, nem por dentro teve condições de avançar. Ele não tinha olhos e deu-lhe a cegueira de herança. Ela investia, ensaiava corridas para rua, mas paralisava e perdia o rumo. Ela passou a esquecer os desejos que tinha, os telefones dos amigos, os programas de tevê que gostava de assistir, a quantidade de vestidos que havia acumulado, o lugar onde havia guardado as fotos dos seus melhores dias, a cor da tintura dos cabelos, onde teria guardado dinheiro.</p>
<p>Não. Não mesmo, ela sussurrou, sentada na cadeira de balanço deixada por algum parente no alpendre à entrada da casa, distante três passos do primeiro degrau da escada para a rua. Do lado esquerdo, sentado na pedra fria, estava ele bem quieto. Fazia um chuvisco sobre a grama não aparada e ele decidiu tocar no assunto. Porque ela já não tinha mais uma expressão de pavor estampada na testa, porque ela estava sentada ali, serena, embalando a cadeira para frente e para trás, porque ela tinha cabelos grisalhos longos amarrados em trança, porque ela era a mesma, ele resolveu finalmente abrir o jogo. Compreender a razão da presença dele tinha sido a batalha de uma vida inteira para ela, talvez o sentido, mesmo, de manter-se viva apesar dele sobre suas pegadas. Assim como negar foi espada, lança, foice, revólver, cuspe, lágrima, oração, perdão. Estar sempre armada roubou-lhe um punhado de sorrisos e a leveza. Então, ela que sempre foi Azaleia rosada, desistiu.</p>
<p>Não, iniciou aquele ser disforme, translúcido e cansado de insistir, eu não quis te machucar. Eu sempre estive aqui, contigo, porque. Um sorriso de gengivas gastas e o balanço mais forte da cadeira interromperam aquela confissão. Sim, balbuciou ela, eu sei. A cadeira balançou pela última vez. Ele ficou ao lado do corpo frio e inerte até a noite descer. Ele se perdeu.</p>
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		<title>Historinha de tapetes</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 07:52:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro&#8230; não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=196&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro&#8230; não sei como é possível ser tão espalhada. Pensei em aumentar o tapete, para o caso de um dia a imensidão interior resolver saltar ao lado de fora e para poder receber os amigos, os simpáticos e os desconhecidos. Eu sempre quis fazer coisas bonitas, mas o meu melhor foi esse tapete de lã fina, que era para não ser dividido e virou um convite a quem quisesse se acomodar.</p>
<p>Um dia eles começaram a chegar. Acho que gostaram do meu tapete, mas jamais entenderam o tom convidativo de nenhum dos meus atos. Então, primeiro eles cortaram as beiradas do meu tapete. E riram nas salas de portas fechadas. Depois, jogaram terra e pedras no meu tapete. Conseguiram sujar a minha roupa azul. Continuavam rindo, agora pelos cantos, cobrindo a boca com as mãos.</p>
<p>Eles vieram muitas vezes, fizeram várias tentativas. Não sei o que tinham contra o meu tapete. Um dia eles puxaram com força e o tiraram de mim. Enrolaram, pisaram em cima. E agora já não disfarçavam mais o riso. Gargalhavam alto e apontavam os indicadores em minha direção. Mas eu tinha uma ideia fixa nesse negócio de tapete e tive uma ideia muito boa. Brilhante, mesmo: passei a descrever o meu tapete para eles. Contei dos detalhes, das cores de que eu mais gostava, de como fazia para colocar cada fiapo de lã nos buracos da tela&#8230; Dessa vez eles não riram. Tenho a impressão de que se zangaram realmente comigo pela minha atitude. Mandaram- me parar.</p>
<p>Daí eu pensei que deveria estar fazendo errado, que meu relato estava saindo em voz muito baixa e esse era provavelmente o motivo da irritação deles. Eu não desisti. Meu-tapete-tem-ondas-amarelas-e-três-ostras-redondas&#8230;, comecei a dizer, aos gritos. Senti meu rosto quente na terceira bofetada, um pouco antes de perder a força de berrar. Fizeram-me calar. Mas eu havia feito o tapete mais bonito do meu mundo e desejava o reconhecimento alheio, precisava da acolhida deles para acreditar no meu talento excepcional de fazedora de tapetes, para convencer a mim mesma dessa tão rara competência artesanal, e o olhar furioso deles estava me sufocando como quando as crianças amarram acidentalmente sacolas do supermercado na cabeça e obstruem a entrada do ar pelo nariz e pela boca e quando o instante entre a agonia e o fim já durara mais do que o suportável, eu.</p>
<p>Eu pensei em fazer um tapete ainda mais bonito e confortável. E a experiência que adquiri fazendo o primeiro tapete me deu condições de arranjar os fios de lã de um jeito novo. Fui pensando, pensando, pensando cada linha desse outro tapete, e pensando com tanta força que o tecer mental quase fazia barulho. Terminei tão rápido que eles nem perceberam a trama. Estavam indo embora e um vento fez os cabelos da nuca de alguns deles arrepiar. Deram a volta, correram até mim e já sacavam canivetes dos bolsos quando levantei voo e sumi de suas vistas. Renderam-se ao tapete mais bonito que já haviam visto e não tinham a menor ideia de que poderiam fabricar os seus próprios tapetes mais bonitos do mundo.</p>
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		<title>De solas e asas no Prêmio Clube de Autores</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 23:51:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Será que a brincadeira funciona? Se der um tempinho, clica na capa e vota no livro que eu coloquei lá ontem. Encomendei um para ver como fica&#8230; Assim que chegar, conto como é tocar num livro próprio recém publicado.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=192&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Será que a brincadeira funciona?</p>
<p>Se der um tempinho, clica na capa e vota no livro que eu coloquei lá ontem.</p>
<p>Encomendei um para ver como fica&#8230; Assim que chegar, conto como é tocar num livro próprio recém publicado. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':D' class='wp-smiley' /> </p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=45579"><img class="aligncenter size-full wp-image-1726" title="solas" src="http://andreiapires.files.wordpress.com/2011/05/solas1.jpg?w=600" alt=""   /></a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/192/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=192&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Destino de títere</title>
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		<pubDate>Sat, 07 May 2011 01:29:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andreiapires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu poderia contar uma história colorida de fantoches, descrever a criação do cenário em papelão e tecido, narrar um conto de fada com varinhas mágicas, baús de tesouro, piratas bondosos, um final feliz. Mas eu preciso falar a verdade. Tenho esse compromisso com a realidade que não me deixa inventar, nem que seja para te [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=185&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu poderia contar uma história colorida de fantoches, descrever a criação do cenário em papelão e tecido, narrar um conto de fada com varinhas mágicas, baús de tesouro, piratas bondosos, um final feliz. Mas eu preciso falar a verdade. Tenho esse compromisso com a realidade que não me deixa inventar, nem que seja para te fazer rir. A títere morava em uma caixa de madeira sem pintura e passava a morte entre o vento e o cordão. De tempos em tempos.</p>
<p>Começava com a vertigem. Então os olhos se reviravam nas órbitas e ficavam voltados para o interior da cabeça, assistindo ao escuro de dentro. As pernas e os braços adormeciam e pareciam inchar. Esfregava os dedos das mãos, repetindo um mesmo movimento, insistente e incontrolável, primeiro discretamente, depois cada vez com mais força e ruído. As palavras iam pulando para fora da boca espremidas entre risos nervosos, gritos de socorro, choros, faísca de fôlego. De sua própria voz as vezes escapava entre as outras vozes: &#8220;Tenho medo, mãe&#8221;, &#8220;Me salva, me deixa sair&#8221;, &#8220;Me perdi. Eu vou morrer agora?&#8221;.</p>
<p>Uma tontura fria aumentava e eles vinham falar mais e mais. E diziam de seus pecados, de suas culpas, do prazer que havia no horror de criaturas como aquela, e praguejavam aos sussuros, ofendiam, debochavam, cravavam as unhas onde havia pele frágil, até que restasse apenas um risco de respiração. Os fios da boneca eram visíveis na vibração daqueles outros. De tempos em tempos as cordas ficavam claras, reluzentes, pulsantes e eles se enredavam nelas como mosquitos em uma teia oculta. Sempre agonia, vergonha, desordem.  Nós de cordão na garganta e a alma em pedaços. A exaustão era o fim. De cada episódio.</p>
<p>Começava com a vertigem e acabava dentro do mofo da caixa de madeira, os olhos redondos nos eixos, calados, assistindo a última fresta de luz apagar. Não terminava. Nunca terminava. Eles cansavam do jogo, mas então vinham outros e redescobriam o brinquedo. Destino.</p>
<br />Filed under: <a href='http://solsticios.wordpress.com/category/contos/'>Contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/solsticios.wordpress.com/185/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/solsticios.wordpress.com/185/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=solsticios.wordpress.com&amp;blog=9674997&amp;post=185&amp;subd=solsticios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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