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Ousadia de penetra

19/01/2012

Tem gente que passa uma vida inteira se esforçando para avançar os próprios limites, tentando provar para deus e o mundo das liberdades e dos arrojos de que é capaz. Está assim de gente que bate o pé para explicar que apesar de cumprir rigorosamente as leis desse país e de usar com constância as palavras mágicas em sinal de respeito e cortesia aos demais tem plenas condições de, eventualmente, sair da linha e mandar às favas a etiqueta social. Gente para quem pintar as unhas dos pés de Azul Pavão nas férias seja atestado incontestável de ousadia. E tem aquelas pessoas que nascem equipadas com um atrevimento espontâneo, que primeiro disparam para depois reparar onde foram se alojar os estilhaços. Essas que vivem entrando e saindo de apuros, suspeito que se divirtam mais. Mas estou convencida de que donos de histórias hilárias para contar são os ousados extremados, aqueles que conseguem calar. As vezes silêncio é audácia pura. É o caso do Tadeu.

Lauro acordou cedo e espiou a rua. Combinação rara folga e calor, melhor não desperdiçar. Chamou os amigos por telefone, que toparam o churrasco na praia, no almoço. Tadeu pedalou até encontrar o fusca do Lauro ao lado da Kombi do Marcelo. Lascas de carne já circulavam. Em tempo, pensou. Estacionou a magrela na sombra da Kombi e ouviu aplausos. Trouxe o arroz para o carreteiro, Tadeu? Marcelo, sempre a pegar no pé. Parceiros desde guris, compadres na vida adulta, o trio se encontra sempre que dá. Abriu a cadeira de praia que haviam separado para ele e sentou na roda. O papo era sobre a festa de Júlia, filha do Marcelo que em breve completaria 15 anos. Daí para relembrarem a época em que os três peregrinavam por festas de debutantes foi um pulo. Conta aquela, Tadeu, do aniversário da Cris, pediu Lauro. As esposas dos amigos de orelhas em pé, queriam saber. Marcelo caiu na gargalhada. Não conseguia falar de tanto rir. Quando respirou fundo, engrossou o coro: conta Tadeu. E esperou que o amigo ruborizasse, mas não. Tadeu era um sacana. Deu um gole na cerveja e começou.

Olha, não sei nem que cara tinha essa Cris, mas do meu aperto lembro bem. Para variar, Lauro e eu não tínhamos sido convidados, mas o Marcelo, sim. E naqueles tempos a gente não precisava de muito convencimento para ir onde não éramos chamados. Queríamos tudo ao mesmo tempo, como qualquer guri de dezesseis, dezessete: festas, bebidas, namoradas… Adolescência a pé e sem dinheiro, só nos restava ter criatividade. Juntamos os pilas que nossos pais nos deram para o ônibus, cheios de recomendação, e compramos duas garrafas de vinho tinto no boteco. Baita curtida, a gente achava: a festa começava às 19h e era no centro, coisa de uma hora de caminhada, regada a vinho, ruim e quente. Imaginem a cena, gurias. Nós três de banho tomado, camisa, gravata e sapato lustrado, no calorão de fevereiro. Penetra que se preze não chega atrasado. Quando saímos de casa ainda tinha sol alto. Não deu outra.

Enquanto o Marcelo cumprimentava os pais da tal Cris, o Lauro entrou de fininho. O segurança veio me revistar. Fui logo perguntando onde era o banheiro. O suor brotando na minha testa. Não era medo de ser descoberto. Era pior. Entrei como um temporal no banheiro e, ainda bem, deu tempo. O vinho não me caiu bem, pensei. Quem entrasse ali naquela hora pensaria em bicho morto há meses. Tateei um lado e outro do vaso, mas cadê papel higiênico? Nem sinal. Bêbado e apavorado, abri uma fresta da porta e não vi ninguém. Perto da pia uma toalha de rosto rendada, felizmente ao alcance da minha mão. Improvisei. Tive o cuidado de usar o verso do enfeite e depois recoloquei a toalha no lugar. Lavei as mãos com pressa e sai dali secando-as nas calças. Tonto, procurei os guris no salão. Fomos nos encostar na parede oposta ao banheiro, de onde podia ver a porta. Entrou um senhor careca vestindo o uniforme da equipe do bufê. Não tardou a sair, cheirando as mãos e esbravejando palavrões. Fiquei bem quieto. A façanha foi assunto de todo o caminho de volta. De vez em quando ainda é nos churrascos de beira de praia.

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