Prece do lápis de cor

2010 fevereiro 2
por andreiapires

Era costume daquelas pessoas naquele lugar sentarem em círculo para comungar do pensamento, como famintos que dividem pão. Pela primeira vez lá, ela cruzou as pernas na posição daquela flor lilás bonita que os orientais adoram, puxou para frente a bolsinha de couro cru em que guardava pedras e fechou os olhos. Costume, também, que os recém chegados fizessem em voz alta uma oração em intenção do que quisessem.

Gentes de todos os jeitos: religiosos, viciados, abandonados, refugiados do caos urbano e da própria fé procuravam aquele lugar de mato e mística afastado da cidade. Um templo budista, reikiano, kardecista, centro de umbanda, candomblé, testemunhas de jeová, who cares, os visitantes eram bem acolhidos e alimentados com bananas e laranjas e bergamotas e amoras maduras, água limpa e chás frescos a qualquer hora do dia. Qualquer hora.

Havia fugido de casa, essa moça, porque queria encontrar o infinito em uma casa ampla, de paredes fluidas, habitada por parentes interligados por um fio mais verdadeiro e anterior que o sangue. Ela bateu a porta atrás dos seus pés e dos cabelos mal amarrados em trança e não voltou os olhos sequer para suspirar a partida. Simplesmente foi, porque acreditava que a ocasião era mesmo algo efêmero como o soluço no frio, e vital como o ar que entra no corpo e se desfaz de alguma forma no ar mesmo…

Precisava ir e foi. Vestiu-se do lótus mais puro que tinha na memória e pensou em articular um pai-nosso, mas logo resolveu que seria conveniente uma oração humilde ou, quem sabe, um improviso que atropelasse a própria e funda timidez. Ela poderia fazer aquela prece, sabia que sim, afinal eram apenas pessoas aquelas que a observavam em sinal, já, de apreensão pela demora indecisa.

Meteu a mão na bolsinha em que carregava as pedras coloridas, os cristais miúdos, e sentiu na ponta dos dedos as hastes de madeira. Lápis de cor! Havia trazido junto ao corpo doze lápis de cor amarrados com barbante, porque não perdia o gosto pelas estranhas delicadezas. Por que não os trouxe dentro da caixa? Por que em barbante? Pelo símbolo.

Sorriu fininho, formando com a boca algo como o gomo das bergamotas que ofereciam aos visitantes famintos, respirou profundamente, um dois três e propôs, aos exatos doze companheiros no círculo: sem olhar escolham um lápis e ao verem a cor pensem naquilo a que essa cor em especial imediatamente os faz lembrar.

Fechem, comigo, os seus olhos e me ajudem a colorir a cena da cura de todos nós, desesperados, que vagamos doentes por esse mundo de desencontro e vertigem tateando calores e familiaridades em lugares insalubres, como podem ser as vezes nossos lares, mesmo.

Vejam, vocês e eu estamos vestindo branco por dentro e por fora e vamos em direção aos grupos de indecisos e de avariados que esperam o fim ou a salvação. Nos espalhamos em doze grupos e, em transe, vamos colorindo essas gentes agoniadas, paralisadas em abismos nos quais estivemos outras vezes, e cantamos alto, alto, alto o mantra do arco-íris, enquanto dançamos ao redor dessas pessoas sentadas na grama verde, e que muito lentamente começam a iluminar os próprios rostos, até que sentimos brotar ao redor dos nossos olhos e verter das pontas dos dedos de homens tortos, de mulheres mancas, de crianças duplas e de velhos e velhas desconsoladamente sós as cores dos nossos lápis de honesta cintilância.

Voltemos de mãos dadas aos nossos lugares cósmicos que ao mesmo tempo nos permitem fincar nossos pés carnados nesse tempo de jás e esperemos que os enfermos, que sofrem de sanidade aguda e de opressor senso de responsabilidade aprendam a se cobrir de cor quando começarem os primeiros espirros. Amém.

Depois desse dia, todas as pessoas que chegavam aquele refúgio intersticial, além de matarem a fome e a sede, recebiam lápis coloridos para aliviar a necessidade brutal de cores por dentro.

*Texto inédito, concluído em 1 de junho de 2008.